É certo e sabido que todos nós já ouvimos dizer que “tenho os dentes apinhados e, por isso, tenho um estalido na articulação”.
Mas será mesmo assim?
Segue este pequeno artigo, com base na literatura científica mais atual, para explicar este ponto: Será que a oclusão causa ou previne disfunção temporomandibular?
–> O que a investigação científica diz:
A partir dos anos 90, surgiram estudos cada vez mais rigorosos a questionar esta teoria. O maior estudo epidemiológico sobre Disfunção Temporomandibular (DTM) – OPPERA – acompanhou milhares de pessoas durante anos e as conclusões foram claras: os principais fatores de risco para desenvolver DTM são o stress, a ansiedade, a depressão, a qualidade do sono, a genética e a sensibilização do sistema nervoso central — e não a forma como os dentes encaixam.
Em 2017, uma revisão sistemática publicada no Journal of Oral Rehabilitation por Manfredini e colaboradores — um dos investigadores mais respeitados do mundo nesta área — analisou décadas de literatura científica e concluiu de forma inequívoca: não existe evidência suficiente para estabelecer uma relação de causa-efeito entre a má oclusão e as disfunções temporomandibulares.
Outro marco importante foi a publicação dos Critérios de Diagnóstico para DTM (DC/TMD) em 2014, o sistema de classificação clínica mais utilizado a nível mundial. Significativamente, este sistema não inclui nenhum fator oclusal como critério de diagnóstico — o que por si só diz tudo.
–> O que causa então a DTM?
A DTM é uma condição multifatorial, o que significa que resulta da combinação de vários fatores em simultâneo. Os mais importantes, segundo a evidência atual, são:
- Fatores psicossociais — stress, ansiedade e depressão são os maiores fatores de risco
- Bruxismo — apertar ou ranger os dentes, especialmente durante o sono
- Sensibilização central — o sistema nervoso de algumas pessoas processa a dor de forma amplificada
- Fatores genéticos — há pessoas biologicamente mais predispostas
- Trauma físico — acidentes, pancadas ou procedimentos dentários prolongados
- Qualidade do sono — o sono perturbado agrava significativamente a dor
O que isto significa para si enquanto paciente
Se sofre de dores na articulação da maxilar, dores de cabeça frequentes, dificuldade em abrir a boca ou sons articulares, saiba que:
- Não precisa de corrigir os dentes para tratar a DTM.
- Os tratamentos com melhor evidência científica são conservadores e reversíveis — como as goteiras de estabilização, a fisioterapia, a terapia cognitivo-comportamental, e em alguns casos, a medicação. Nenhum destes tratamentos altera permanentemente a sua dentição.
- Desconfie de planos de tratamento extensos e irreversíveis propostos com o argumento de que a sua mordida está a causar as suas dores.
- A ciência não suporta essa abordagem.
- Procure um profissional com formação específica em DTM, que utilize os critérios de diagnóstico atuais (DC/TMD) e que adote uma abordagem biopsicossocial — ou seja, que trate a pessoa no seu todo, e não apenas os dentes.
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Referências bibliográficas:
Manfredini D, Lombardo L, Siciliani G. Temporomandibular disorders and dental occlusion. A systematic review of association studies: end of an era? Journal of Oral Rehabilitation, 2017; 44(11): 908–923
Schiffman E, Ohrbach R, Truelove E, et al. Diagnostic Criteria for Temporomandibular Disorders (DC/TMD) for Clinical and Research Applications. Journal of Oral & Facial Pain and Headache, 2014; 28(1): 6–27.
Seligman DA, Pullinger AG. Analysis of occlusal variables, dental attrition, and age for distinguishing healthy controls from female patients with intracapsular temporomandibular disorders. Journal of Prosthetic Dentistry, 2000; 83(1): 76–82.
Michelotti A, Iodice G. The role of orthodontics in temporomandibular disorders. Journal of Oral Rehabilitation, 2010; 37(6): 411–429.
Trivedi A, Agarwal S, Gupta I, et al. A comparative evaluation of malocclusion and associated risk factors in patients suffering with temporomandibular disorders: a systematic review and meta-analysis. European Journal of General Dentistry, 2022; 11: 149–157.


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